quarta-feira, 10 de novembro de 2010

ANGOLA 1975- 2010- 35 ANOS DE UMA INDEPENDÊNCIA...VOTOS AO PRESENTE E AO FUTURO!


Há 35 anos atrás os dilemas eram muitos. Para portugueses com visão progressista mas responsável e para angolanos que queriam e almejavam a sua independência da potencia colonial!
O tempo está a encarregar-se de rectificar o que de  mal foi feito e pessoas que têm ideais mais  de acordo com o que deve ser um País novo!
Nesta data, 35 anos de independencia o que eu posso é desejar que cada vez mais se consolide e olhar o presente e o futuro com realismo e tolerância! As  novas gerações agradecem!
FORÇA ANGOLA!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Ex Combatentes . Após 35 anos. Haja honra e não esquecimento

Regresso dos antigos combatentes


A casa da vergonha



São antigos combatentes da Guerra Colonial. Regressaram dos campos de batalha em África mutilados no corpo e na alma. Vivem em situação degradante no Lar Militar da Cruz Vermelha.



A porta de vidro é opaca. Finge estar fechada. Abrimo-la com a mesma facilidade como se estivesse descaradamente aberta. Entramos no Lar Militar da Cruz Vermelha, sediado na Avenida Rainha Dona Amélia, fundado, garante a placa, em 1971. Na recepção, um indivíduo interrompe uma côdea com manteiga para nos atender. Pede-nos o Bilhete de Identidade. Promove-nos a “doutores”. Preferimos os nomes a títulos. Ele gargalha.



O resto do mini-lanche apressa-se no estômago para mostrar lucidez: chama-se Manuel. É angolano. Por sorte, vive. Sorte. Coisa rara em Angola. O barco onde seguia afundou-se. O mar engoliu todos os ocupantes, “menos eu. Menos eu.” Duas vezes para ter a certeza que ainda permanece no reino dos vivos. A guerra não lhe roubou os braços, não lhe amputou as pernas. Corre e abraça. Mas, a contenda, esse choque de sangues, matou-lhe o que não nos quer dizer.



“Já vivi neste lar.” Alivia a lembrança. Quando a sua estadia expirou o prazo, teve que mudar de poiso.



Enquanto traz de volta as balas e os tiros que ouviu e viu em África, as cadeiras de rodas parecem presenças divinas; estão em todos os lados. São guiadas por homens de semblantes iguais. Rostos desmaiados. Com dores e segredos que, à partida, serão idênticos, ou com o mesmo fio doloroso. Seguimos o estrupido do comando das rodas. Manuel faz as honras da casa: enuncia as alcunhas dos deficientes. Num ápice faz o historial da tragédia física de cada um. Seguidamente, fala da sua. Mas não pode adiantar mais. “É confidencial. Eu também fui militar.”



A luz não consegue furar o espaço. Estamos num corredor cinzento. Um corredor com vivos mortos. Passamos por portas com maçanetas irregulares. Portas fechadas. Outras, nem por isso. Vemos: quartos. Cabem três camas. Têm televisões desligadas. Fotografias tão antigas que rejeitam a moldura. O silêncio deixa cair sempre um sonido, menos no Lar Militar da Cruz Vermelha. Ninguém abre a traqueia. Ninguém geme. Aqui, neste beco do mundo, ninguém tem nome. Pode-se entrar e sair sem ninguém dar por isso. Sem que ninguém se importe com isso.



O Governo que pretende proibir a nicotina nos restaurantes e nas discotecas, nesta residência não terá hipótese. Cigarros. Fumo. É névoa assídua.



No refeitório, no canto de uma prateleira de madeira, jazem garrafas e garrafões de vinho, vazios ou por abrir. Um cão de cor indefinida pastoreia na sala. Não ladra. Uma maca encaixou bem de frente ao televisor. Um militar, provavelmente o mais jovem dos internados, estava a servir Portugal numa comissão da ONU e um acidente de carro laminou-lhe os sentidos. Entretém o tédio com o vai-e-vem do ecrã.



São cinco da tarde. A mesa para o jantar está pronta. Pão num saco de plástico. Jarros brancos tapados com guardanapos lívidos. Destapamo-los. Lá dentro vive vinho, “Briol tinto que é o mais eficaz para suportar a noite”, afiança quem se recusa a revelar identidade. “A comida da janta é peru.” Mas tanto lhe faz a ementa de hoje e de há trinta anos.



Os braços e as pernas pararam antes dessa aritmética. A medula quebrou em África. A culpa não foi da pólvora. As minas não foram as culpadas. “Só pelo que vi fiquei assim.” “Só” são os horrores que presenciou e que lhe desencadearam ataques epilépticos. “Mas não quero falar disso.” A sua voz prende-se. Da garganta quer sair um choro. Ele não permite. Acciona a primeira mudança. A cadeira arranca e fica como todas as que resistem na sala: virada para a janela num doloroso abandono.



Alguém faz sinal com os olhos. Cumprimos a discrição. Vamos até à ponta do salão. Um saco a transbordar de totolotos e Euromilhões preenchem a mesa. Saiu ileso do combate em África. É reformado bancário. A reforma de mil euros vai absoluta para o lar. Adormeceu ao volante e o corpo não aguentou o embate. “Bebe-se muito. Aqui bebe-se muito!” Para esquecer ou para aguentar o arco do ponteiro do relógio. Para o que seja, a bebida faz a vez dos analgésicos e alivia os socos do tempo velho.



“Um dia eu contarei tudo o que se passa cá dentro.” Um dia que podia ser já. Mas, chegámos fora de horas. “Um dia. Hoje não.”



Manuel largou o seu posto e aparece à nossa beira. “Vão ao quarto n.º 5. Falem com o Bento.” Não nos esquecemos: confidencial. E agradecemos a confiança.



Os corredores, afinal, também são labirintos de escuridão. E para agravar o mapa, a numeração dos compartimentos é aleatória. Enquanto procuramos uma bendita porta que tenha o número cinco cravado na ombreira, deparamo-nos com a casa de banho. Aberta. Às claras. Uma criatura tenta a custo fazer um gesto simples. Em vão. O corpo não obedece. Ajudar é algo urgente. A cadeira com rodas milagrosas diz-nos que não: vira-nos as costas.



Aceleramos o passo. O cão fugiu do corredor. Continua sem latir. Talvez tenha pressentido qualquer coisa. Temos vergonha de poder fazer essas coisas simples. Temos vergonha deste cemitério doído. Fazemos a curva coxos de humanidade. A vergonha não arreda pé.



Até que enfim que, nesta mansão derrelicta, esbarramos com um empregado. Vem de cigarro pendurado nos dedos.



À parte da senhora que cuidava do prematuro jantar, os empregados, médicos, enfermeiros, são invisíveis. Devem ter hibernado. Daí a surpresa. A pronúncia do Leste sai seca. Bolça ordens: temos que esperar para ir ao referido quarto cinco. É o que fazemos. Depois, quando a impaciência se torna atrevida, batemos à porta. “Façam o favor de entrar.” É o Bento. Uma mulata de bata branca leva--lhe a sopa à boca.



Brincamos com o privilégio: tem uma miss só para ele. O riso traz-lhe saudades e orgulho. “Estou aqui, já faz uns pares de anos.” Combateu em Angola, “faz outros pares de anos.” O tempo, a duração de quando e como foi, quem estava e não estava, não fazem falta para uma conversa.



Na sua dianteira, um espelho emite o presente. Debaixo dos lençóis, repousa inquieto um físico autista. Combatente em Angola. Entre 1965 e 1968. Uma garrafa enxuta de Porta da Ravessa faz de bibelô. “Fui soldado em Angola. Mas não quero falar disso.” Angola é a palavra de ordem. Uma fotografia pendurada na parede ilustra os anos em que podia conduzir o carro mágico: cadeira de rodas. Se gosta, ou não, de estar internado no Lar, em nada lhe altera a rota. Aqui está e aqui ficará. A memória não traz saúde.



Encaminhamo-nos para a saída. Tropeçamos com o gelo da casa de banho. A impossibilidade humana não sofreu mutação. Um homem de laringe muda, vê-nos e desiste. O fragor agudo do motor manda mais do que tudo. Os empregados terão ido mesmo de férias. Um negro de cabelo grisalho não se separa da proximidade. As pernas voaram, mas os músculos dos braços rodam o assento.



Manuel está no seu posto – a entrada. Olha afincadamente para um frasco de perfume. Não sabemos a razão, nem ele. Mas sem querer, aquele odor anestesiou o bafo de solidão e de esquecimento que trazíamos do interior. “É confidencial.” Nem tudo. Como as três folhas onde estão inscritos vinte e um doentes. O vocábulo tetraplégico ganha em incondicional maioria.



As promessas cumprem-se. Voltámos num domingo. Dia da folga de Manuel – fraca pontaria. Este porteiro pertenceu à Polícia. O ritual não sofre alterações. O Bilhete de Identidade é o passaporte. Já fintámos o labirinto. No corredor esvaziado de luz, as caras reconhecem-nos. Os homens sem asas dão as boas-vindas: não viram as cadeiras de rodas. A mãe do militar que viu a sua coluna esmigalhada numa missão na ONU, dá de fumar ao filho.



O futebol expele os dois ‘tês’: o da timidez e o da tristeza. O cão teima em não ganir. O álcool nos copos escondidos e nas veias fazem a rotina. Milagrosamente, a dicção ucraniana amoleceu. Abraça-nos com um cotovelo.



Decorámos o exílio de Bento, esse quarto com o algarismo cinco que tem um espelho a reflectir o calendário. O Bento é o único que não rasgou o diário. Hoje, o passado, apesar de continuar em carne viva, larga mais eco. Em 1968, quando estava pronto para regressar ao seu Algarve, uma bala atingiu-lhe a liberdade motora. No dia 7 de Março a vida estremeceu. De Angola veio para Portugal numa maca. Veio metade. “É assim.” Cortamos a mágoa. Distraímos a mácula com a ausência da Porta da Ravessa. “Nem todos os dias são dias. Mas gosto. Temos que fazer alguma coisa.” Indagamos se é costume receberem visitas de representantes do Estado português ou de dirigentes da Cruz Vermelha. O sim sai-lhe a saca-rolhas. “Não me ponha em barulhos.”



No caminho para a fronteira da humanidade – o acesso para sair do Lar Militar da Cruz Vermelha – lá estava a casa de banho abandonada com gente abandonada a viver num depósito. Os nossos pés pesam e aceleram. Ainda na saída, cruzamo-nos com o amante dos jogos de sorte. Ganhou nove euros. A família foi para a terra.



Ele ficou ali. Insiste no que anteriormente nos disse: “Um dia eu conto tudo o que se passa nesta casa. Ainda não é hoje. Repare nestas paredes. Estão imundas. Não temos ninguém.” Do seu bolso caem duas amêndoas. São nossas. Deixamos a porta aberta.

ESTE RESUMO ACERCA DO LAR MILITAR DA CRUZ VERMELHA  É APENAS UM DOS LADOS SOMBRIOS DOS RESISTENTES QUE TEIMAM EM (SOBRE)VIVER...

domingo, 22 de agosto de 2010

ODE A ANTÓNIO LOBO ANTUNES! O RESPEITO PELO NOSSO PASSADO É BONITO!

Para o bem e para o mal, devemos ter algum cuidado em tratar o nosso passado histórico, porque qualquer ser inteligente e culto consegue saber e analisar racionalmente certos factos da nossa História, seja ela recente ou mais longínqua nos séculos do nosso Portugal!
E agora os nossos cidadãos escritores e não só, deram para zurzir só o que é mais negativo e esqueçem o que pelo contrário  se fez ao longo do nosso passado!
Por isso ás vezes "acagaçam-se" por aquilo que dizem na tentativa de se mostrarem discordantes com o que fizeram no passado! Porque não terem desertado? Seria mais fácil de falar e escrever e poderiam circular por todo o lado a cobertoa da hipocrisia e ignorância dos factos!
Leiam um extracto do que foi publicado no JN, acerca de uma visita do escritor Aparazada  para este fim de semana em Tomar!

Lobo Antunes ausente de Tomar após ameaças



01h48m


O escritor António Lobo Antunes faltou a uma iniciativa em Tomar alegando "razões de segurança", depois de ter sido publicamente ameaçado de violência física por um grupo de militares reformados. (diga-se ex-combatentes do Ultramar português da altura)! 


Segundo Manuel Faria, vice-presidente executivo da entidade de Turismo de Lisboa e Vale do Tejo e um dos promotores do iniciativa, o escritor cancelou a deslocação a Tomar onde estava previsto passar um fim-de-semana de férias e estar presente na noite deste sábado numa conversa com leitores num café da cidade.


NOTA FINAL: QUEM NÃO QUER SER LOBO, NÃO LHE VESTE A PELE!
E como se ajusta ao dito Lobo esta máxima!

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

0 SÍMBOLO DO BATALHÃO 3880...

Este era o Distintivo do Batalhão com uma frase muito apelativa, bem ao jeito dos ventos de guerra...!
Só faltava ali um Dragão, digo eu!

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Os ex-Combatentes ainda respiram... ou conversas de café!

Ontem quarta-feira, fim de tarde, sendo eu um adepto confesso do rei futebol, "Dragão" dos 4 costados,  resolvi ir até ao Café Lua em Matosinhos, que é um dos meus locais de relaxe e convívio com Amigos, para assistir ao jogo entre o Braga e o Celtic de Glasgow, apenas como interessado num bom jogo e por simpatia com o clube bracarense!
Esplanada quase repleta num fim de tarde esplêndido e eu no interior olhando para a pantalha para acompanhar as incidências do jogo... juntando mais uma meia dúzia de   assistentes, lá íamos vendo o desenrolar dos acontecimentos!
No intervalo e de modo casual com um outro cliente da mesa vizinha, iniciamos uma conversa informal e que foi para onde? adivinhem: Pois claro, era também um antigo combatente da guerra colonial e por arrasto ficamos ambos a saber que o nosso teatro de operações tinha sido práticamente o mesmo, ou seja, ANGOLA,ele o snr Sá Pereira de Viana do Castelo de 1971 a Fev.74 e eu 72 a Set74.O intervalo foi curto para todo um processo de relembrar as memórias desses tempos, mas serviram de ânimo para que filosofâssemos sobre os valores actuais e todo o decurso do nosso ambiente "democrático" que o 25 de Abril 1974 nos trouxe!
Íamos a espaços olhando para o écran vendo o Braga a derrotar de maneira categórica uns escoceses que pelo andamento em campo devem ter "abusado da gastronomia  minhota, e rebobinar um filme que para nós os ex-combatentes que ainda respiram de modo saudável, uns tempos marcantes e decisivos nas nossas vidas...sem traumas!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

AS AVENTURAS E DESVENTURAS DE DANIEL PÔMBOLA...ZÁDI - 1973.

Ele apareceu pelo aquartelamento com não quer a coisa! Era normal, diariamente a nossa Enfermaria atender a população local que se queixava de diferentes patologias de nível acessível aos conhecimentos dos nossos Enfermeiros e outros que apareciam para falar connosco e se possível terem acesso a alguma alimentação, ou refeições que a nossa Cozinha ia disponibilizando conforme podia... havia por isso um trânsito de pessoas numa abordagem aceite entre Militares e População Civil  residente nas imediações ou arredores do aquartelamento Ponte de Zádi. A nossa posição logística era relativamente próxima da nossa fronteira Norte com o Zaire,(actual Republica Democratica do Congo), e assim mais exposta a figuras que apareciam do lado de lá.
O Daniel Pômbola, como pessoa era uma "figura" divertida, pelo arrojo com se nos dirigia e as histórias que nos "contava"...exemplos: "Je parle français" Je viens du Zaire" Je connais beaucoup de gens ...et je ma appelle Daniel Pômbola... intercalando com um português sofrível! Enfim nós achamos piada ao Daniel e durante uns dias aparecia ele lá pelo quartel á procura do "tacho" e dois dedos de conversa!
Mas ele tinha uma obsessão: queria conduzir um jeep ,a carta de condução e aprender Mecânica! E quem eram os instrutores escolhidos? Eu e o Meu colega Furriel Enfermeiro Rocha! Bem todas as vezes ele nos "melgava" com esse pedido, que um dia eu mais o outro meu colega encenámos uma brincadeira: tinha um Jeep que estava no estaleiro á espera de um motor  por isso inoperacional e levamos o Daniel para a primeira aula de condução! Ele sentou-se no lugar do condutor e simulava o barulho do motor enquanto rodava o volante prara a direita e para a esquerda! Nós os dois íamos-mo-nos mantendo de semblante sério á Instrutor de condução e durante uns minutos a lição assim era dada! e á segunda lição acabamos por lhe dar a título simbólico a carta de condução,( que não era mais de que um aerograma em branco com umas assinaturas elegíveis). Como ele queria ser mecânico andava por perto dos mecânicos a "ajudar" nas reparações, com uma produtividade muito duvidosa! um dia fui encontrá-lo a dormir junto á oficina e arranjei o pretexto para o despedir com "justa causa"! E assim o Daniel acabou o seu projecto...
Mas que era uma figurinha lá isso era!
Facetas mais divertidas em que o bom humor não fazia mal a ninguém e o respeito que nos mereciam ao pessoas que connosco se cruzavam... a guerra naquela altura corria mais nos bastidores da política como se viria a comprovar meses mais tarde!

PRAIAS, VERÃO...LUANDA MARÇO 1974!

É verdade sim, Verão Março 1974, este vosso Amigo, no dia em que tinha regressado de férias em Portugal! Saí do Porto com chuva e frio e neste dia 6 de Março, aqui estava eu em grande na praia da Barracuda na Ilha de Luanda! Que saudades meu Deus! Eu não quero ir para outra "parte", sem voltar um dia a Angola! Este projecto meu está na primeira das minhas "prioridades"! Assim as coisas se proporcionem!
E mais uma vez afirmo e repito! Acompanho com especial atenção tudo o que se passa neste País africano, mas "desligado" do contexto  dos anos 70 e "actualizado" para o que é o refazer de uma conjunto de vontades e Povo que lutam pela sua identidade e sonhos, mas sem renegar o passado!
A propósito aqui no meu burgo em pleno Julho, o tempo não está por aí além para dar um salto á praia, com ela aqui tão perto! Ironias...